terça-feira, 2 de maio de 2017

ESCOLA "JÚLIO MESQUITA" - DE CEMITÉRIO, A GRUPO ESCOLAR E ALOJAMENTO MILITAR

17 de Fevereiro de 1897 - Colocação da Pedra Fundamental do Grupo Escolar
      Em 1896, a "Fábrica da Matriz" (Paróquia N. S. da Penha) doa para a prefeitura de Itapira um terreno desmembrado do antigo Cemitério Municipal para a construção de um Grupo Escolar. A área de 2 mil e 300 metros quadrados teria sua frente voltada para a antiga "Rua do Ipiranga", atual rua Campos Salles.  No dia 17 de Fevereiro de 1897, era colocada a pedra fundamental do Grupo Escolar, com suas obras se iniciando imediatamente. Fato importante, é que o arquiteto responsável pelo projeto é o francês Victor Dubugras, dono de importantes obras em São Paulo, incluindo o belíssimo "Colégio Des Oiseaux", criminosamente demolido em 1974. 
     Inaugurado em 1900, esta joia preciosa da arquitetura da Primeira República, o Grupo Escolar, atual Escola Estadual "Júlio Mesquita", permanece imponente, sobrevivendo firme à passagem dos anos.
Grupo Escolar "Júlio Mesquita", Itapira-SP. Início do Século XX
    Durante os combates da chamada "Revolução Constitucionalista" em 1932, o Grupo Escolar abrigou centenas de voluntários e soldados do exército e força pública paulista que, chegando à estação da Mogiana, subiam até o alto do Parque Municipal, para visualizar as montanhas de MG, onde os combates aconteciam e se abrigar no Grupo Escolar "Júlio Mesquita", onde recebiam alimento, abrigo, leito, e algumas vezes roupas, armamentos e munições.
3ªCIA.3ºBAT.FERNÃO DIAS - Photo Anrtunes
Pe. Lázaro Sampaio e João Dias
"É uma das integrantes de conjunto de 126 escolas públicas construídas pelo Governo do Estado de São Paulo entre 1890 e 1930 que compartilham significados cultural, histórico e arquitetônico. Essas edificações expressam o caráter inovador e modelar das políticas públicas educacionais que, durante a Primeira República, reconheceram como inerente ao papel do Estado a promoção do ensino básico, dito primário, e a formação de professores bem preparados para tal função. Quanto às políticas de construção de obras públicas, são representativas pela estruturação racional de se instalar edificações adequadas ao programa pedagógico por todo o interior e capital do Estado.
Destaca-se a qualidade do conjunto caracterizado pela técnica construtiva simples, consolidando o uso de alvenaria de tijolos e por uma linguagem estilística que simplificou os atributos da tradição clássica acadêmica. A organização espacial era concebida incorporando preceitos e recomendações de higiene, insolação e ventilação previstos na cultura arquitetônica que vinha se firmando desde o século XIX. O programa pedagógico distribuía essencialmente salas de aulas ao longo de eixos de circulação em plantas simétricas. Aos poucos se firmaram em projetos arquitetônicos padronizados que se repetiam com pouca ou nenhuma variação em mais de um município.

Colégio Des Oiseaux - São Paulo
Victor Dubugras - (Sarthe, França 1868 - Teresópolis RJ 1933). Arquiteto. Nascido na França, Dubugras é criado em Buenos Aires. Não se sabe muito sobre o período que passa na Argetina nem sobre sua formação, sabe-se apenas que trabalha no escritório do arquiteto italiano Francesco Tamburini1 - um dos autores do projeto do Teatro Colón -, e que concebe o projeto de um edifício, em 1886, e de uma igreja neogótica, em 1889, em La Plata. Em 1891, com a morte de Tamburini, Dubugras muda-se para São Paulo, e trabalha até 1894 na carteira imobiliária do Banco União, dirigida por Ramos de Azevedo (1851-1928), e, em 1894, 1895 e 1897, no Departamento de Obras Públicas de São Paulo - DOP. Sua atividade como arquiteto autônomo na cidade data de 1896, mas é apenas entre 1897 e 1898 que abre o próprio escritório. Em 1894 é convidado a ministrar a disciplina de desenho sobre trabalhos gráficos na Escola Politécnica de São Paulo - Poli. Ali o título de "professor de aula" - cargo atribuído aos arquitetos sem diploma de nível superior - comprova a tese de que Dubugras não cursa nem conclui nenhum curso de arquitetura ou engenharia na Argentina.2 A ausência do diploma, entretanto, não o impede de dar aulas na Poli, onde permanece até 1928, quando se aposenta, nem de participar da fundação da Sociedade dos Arquitetos e do Instituto de Engenharia, em 1916.

     Na década de 1910, Dubugras colabora com o engenheiro Saturnino de Brito (1864-1929) nos projetos do Sanatório Popular e das Habitações Proletárias Salubres e Econômicas, ambos não construídos, em Santos, cidade para a qual o engenheiro desenvolve obras de saneamento. Ainda nessa década, Dubugras acompanha o então prefeito da cidade de São Paulo, Washington Luís (1870-1970), posteriormente governador do Estado (1920-1926) e presidente da república (1926-1930) em viagens pelos arredores de São Paulo para o levantamento da arquitetura do período colonial, engajando-se na campanha neocolonial. A convite de Washington Luís, de quem se torna amigo, concebe dois conjuntos arquitetônicos de grande repercussão na época: a Ladeira da Memória, 1919, e os Pousos e Monumentos da Serra de Paranapiacaba, 1921/1922, dedicados às comemorações do Centenário da Independência do Brasil.

DETALHE: Grupo Escolar "Júlio Mesquita e Colégio Des Oiseaux
     Além dessas obras públicas de grande porte, Dubugras desenvolve centenas de projetos particulares, de residências a edifícios comerciais, no centro da cidade de São Paulo e nos novos bairros paulistanos de elite, como Vila Buarque, Higienópolis e Cerqueira César, não se restringindo ao neocolonial, mas experimentando linguagens muito diversas. Em 1927/1928, Dubugras se transfere para o Rio de Janeiro, e dá continuidade a sua obra, concentrando-se na clientela particular. Recebe medalha de ouro na Exposição Geral de Belas Artes do Rio de Janeiro, em 1916 e a medalha de prata no Congresso Pan-Americano de Arquitetos em Buenos Aires, em 1927.

 
Projeto de Dubugras em Araras-SP

Comentário Crítico - Victor Dubugras é considerado um dos precursores da arquitetura moderna na América Latina, sendo comparado a arquitetos proeminentes no cenário europeu e americano contemporâneo, como Antoni Gaudí (1852-1926), Victor Horta (1861-1947), Charles Rennie Mackintosh (1868-1928), Auguste Perret (1874-1954) e Frank Lloyd Wright (1869-1959).3 Dos anos 1890, quando chega a São Paulo, até a década de 1930, quando encerra sua produção, Dubugras acompanha o desenrolar da história da arquitetura latino-americana, transitando entre o ecletismo, art nouveau, neocolonial e modernismo. Esse trânsito, realizado de modo inconsistente pela maioria dos arquitetos e engenheiros da época, em Dubugras é orientado pela preocupação constante com a racionalidade dos processos construtivos e o esforço permanente de experimentação de soluções plásticas e técnicas inovadoras. Essas preocupações justificam o seu pioneirismo e são compartilhadas por outros agentes da modernidade em curso em São Paulo, como os engenheiros Antonio Francisco de Paula Souza (1843-1917), Hippolyto Gustavo Pujol Júnior (1880-1952) e Alexandre de Albuquerque (1880-1940) da Escola Politécnica de São Paulo - Poli.
FONTE: Enciclopédia Itaú Cultural

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